Saber quando procurar ajuda psicológica no pós-parto nem sempre é fácil.
A chegada de um bebê costuma ser imaginada como um dos momentos mais felizes da vida. E, de fato, ela pode ser.
Mas também pode ser um período de muitas dúvidas, cansaço, inseguranças e mudanças que quase ninguém explica.
No consultório, existe uma frase que aparece com frequência:
“Eu achei que, quando meu bebê nascesse, eu já saberia ser mãe.”
A realidade costuma ser diferente.
A maternidade não nasce pronta.
Ela vai sendo construída um dia de cada vez.
E, enquanto essa construção acontece, também é natural que surjam emoções difíceis.
A questão é: como reconhecer quando esse sofrimento merece um cuidado maior?
Nem todo sofrimento significa que há algo errado
Os primeiros dias após o nascimento costumam ser intensos.
Existe um bebê que depende de você para tudo.
Existem noites mal dormidas.
Mudanças hormonais.
Uma rotina completamente diferente.
É esperado que você se sinta mais sensível, emocionada ou insegura nesse período.
Isso não significa, automaticamente, que exista um transtorno psicológico.
Ao mesmo tempo, também não é preciso esperar que tudo fique insuportável para procurar ajuda.
O próprio Ministério da Saúde destaca a importância de reconhecer precocemente sinais de sofrimento emocional no pós-parto para que a mulher receba o cuidado adequado, favorecendo seu bem-estar e a relação com o bebê.
1. Você sente que está sempre fazendo tudo errado
Uma das frases que mais escuto é:
“Parece que todas as outras mães sabem cuidar dos filhos. Só eu não.”
Quando essa sensação acompanha praticamente todos os dias, ela merece atenção.
A maternidade não exige perfeição.
Mas a culpa constante costuma gerar muito sofrimento.
2. Sua mente não consegue descansar
Mesmo quando o bebê finalmente dorme…
você continua pensando.
Será que ele respirou?
Será que mamou o suficiente?
Será que fiz alguma coisa errada?
É natural existir preocupação.
Mas, quando ela ocupa praticamente todos os pensamentos e impede você de descansar, vale a pena olhar para isso com mais cuidado.
3. Você sente culpa por tudo
Culpa porque ficou cansada.
Culpa porque pediu ajuda.
Culpa porque sentiu vontade de ficar alguns minutos sozinha.
Culpa porque imaginou que a maternidade seria diferente.
No consultório, muitas mulheres chegam acreditando que sentir qualquer emoção difícil significa amar menos o filho.
E isso simplesmente não é verdade.
4. Você percebe que deixou de olhar para si
Às vezes, você lembra da vacina.
Da consulta.
Da troca de fraldas.
Mas percebe que nem conseguiu almoçar direito.
Nem beber água.
Nem descansar.
Cuidar de um bebê exige muito.
Mas cuidar apenas dele, esquecendo completamente de si, costuma aumentar o sofrimento ao longo do tempo.
5. Você já não sente prazer nas coisas que antes gostava
Não é apenas falta de tempo.
É como se nada mais despertasse interesse.
Tudo parece pesado.
Os dias passam, mas você sente que apenas está tentando sobreviver à rotina.
6. Você sente que ninguém entende o que está acontecendo
Mesmo cercada pela família…
algumas mães descrevem uma sensação muito grande de solidão.
Porque escutam frases como:
“Você precisava estar feliz.”
“Isso passa.”
“Aproveita, porque essa fase voa.”
Mas, por dentro, sentem que ninguém realmente compreende o que estão vivendo.
7. O sofrimento só aumenta
Talvez este seja o sinal mais importante.
Com o passar das semanas, você percebe que não está conseguindo se adaptar.
Pelo contrário.
Cada dia parece mais difícil que o anterior.
Quando isso acontece, procurar ajuda pode fazer toda a diferença.
Você não precisa esperar uma crise
Existe uma ideia muito comum de que só devemos procurar ajuda psicológica quando o sofrimento se torna insuportável.
Mas isso não é verdade.
A psicoterapia também pode ser um espaço de prevenção, acolhimento e fortalecimento emocional.
Quanto antes a mulher encontra um lugar onde pode falar sem medo de julgamentos, maiores são as possibilidades de compreender suas emoções, fortalecer sua confiança e atravessar essa fase com mais segurança.
A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) também reforça a importância de que a saúde mental faça parte do cuidado oferecido às mulheres durante a gestação e o puerpério, destacando o reconhecimento precoce dos sinais de sofrimento emocional.
Pedir ajuda cedo não significa que o problema é maior.
Significa apenas que você decidiu cuidar de si também.
Procurar ajuda não significa que você falhou
Talvez uma das maiores dores da maternidade seja acreditar que você deveria conseguir dar conta de tudo sozinha.
Mas ninguém aprende a ser mãe em um único dia.
A maternidade também é construída.
E pedir ajuda faz parte dessa construção.
Como a psicoterapia pode ajudar?
A primeira coisa que muitas mulheres dizem depois da primeira sessão é:
“Achei que só eu me sentia assim.”
Quando existe um espaço onde você pode falar sem medo de julgamentos, muitas culpas começam a perder força.
A psicoterapia não oferece uma maternidade perfeita.
Ela oferece acolhimento para que você viva a sua maternidade com mais segurança, compreensão e gentileza consigo mesma.
Cada mulher tem uma história.
Por isso, cada acompanhamento também é único.
Conclusão
Se você chegou até aqui, talvez tenha se identificado com algum desses sinais.
E quero que você lembre de uma coisa.
Você não precisa esperar que o sofrimento fique insuportável para buscar ajuda.
Cuidar da sua saúde mental também faz parte do cuidado com o seu bebê.
Porque, antes de existir uma mãe, existe uma mulher.
E essa mulher também merece ser acolhida.
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Sobre a autora
Elisiandra Rohde é psicóloga (CRP 08/32260), especialista em Saúde Mental Perinatal. Atua no acompanhamento psicológico de mulheres que estão vivenciando o planejamento da gravidez, a gestação, o pós-parto e os desafios da maternidade, oferecendo um espaço de escuta, acolhimento e cuidado com a saúde emocional.
Realiza atendimentos presenciais em Cascavel (PR) e também na modalidade online.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Depressão pós-parto. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/depressao-pos-parto.
BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado da Depressão na Atenção Primária à Saúde. Disponível em: https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/depressao/.
FEBRASGO – Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia: Depressão Pós-parto. São Paulo: FEBRASGO, 2020.

